- Existe alguns momentos em que fecho meus olhos e imagino que beijo você.
Aquele beijo que a gente costuma ver no cinema. Nos filmes. A luz perfeita, de
um amarelo meio envelhecido de sol a ofuscar a imagem. O céu, de um azul opaco
com poucas nuvens. A trilha sonora com alguma música tocando baixo ao fundo
para depois ir subindo o volume conforme a cena avança. E eu, de olhos fechados
aqui a imaginar esse beijo. Quase posso sentir você, sua lenta aproximação. Te
observo afastar de leve uma mecha de meus cabelos que cobre parte de meu rosto,
para e em seguida percorre-lo com a ponta de seus dedos. Olhos fixos. Bocas
quase juntas. E eu de olhos fechados aqui, no silêncio de meu quarto, quase
posso sentir o seu perfume. Sinto a pele de meu rosto quase tocar o seu, e é
como se você estivesse aqui. Chego a sentir o sangue correndo nas veias. O
bater do coração. O arrepio frio que percorre em linha reta minhas costas. Nesse
momento de quase beijo o tempo para e respira fundo, e em seguida prende a
respiração. Não escuto mais a música ao fundo. Escuto o silêncio vibrar em meus
ouvidos. E nessa hora, somente posso sentir. Se fosse um filme, a luz amarelada
ofuscaria a tela. E o beijo aconteceria. E os lábios se uniriam, leve, doce,
urgente. E esse beijo, que não é de cinema e só está acontecendo em minha
mente, parece enfim, real. O toque dos lábios. O roçar da pele de seu rosto no
meu. Os corpos tão próximos agora. Minha mão em seus cabelos. Mas sei que me
encontro aqui, de olhos fechados a imaginar tudo isso. É de propósito que
demoro um pouco para abrir meus olhos. Eu demoro, e refaço a cena em minha
mente. Repito o beijo. E repito. E repito. Com um leve sorriso sonhador nos
lábios. E, de repente, como um sopro ou um breve respirar, eu abro meus olhos.
Não, você não está aqui. Você pertence aos meus pensamentos. E gosto quando te
sinto assim, tão perto de mim. Não, você não está aqui. Mas mesmo assim, eu
beijei você.
quarta-feira, 24 de junho de 2020
sábado, 30 de maio de 2020
Não é tempo de respostas
- Tantas palavras passam em meus pensamentos agora. Sempre foi assim. Em alguns momentos as palavras passam tão rápido. Na velocidade da luz. Só que eu consigo ler suas linhas. Consigo entender as frases que elas formam. E são frases corridas, soltas, que muitas vezes não dão um texto. E eu coloco uma música baixinho. E fecho os olhos na tentativa de conseguir lê-las. E eu respiro fundo e deixo minha mente viajar. E tento olhar para dentro. Só que dentro é um turbilhão de palavras e letras. E eu estou acostumada com isso. E na maioria das vezes só deixo com que elas passem, com suas sombras de frente para meus olhos fechados. Dificilmente organizo isso tudo em textos, porque as vezes não fazem sentido. Porque as vezes são palavras soltas e pensamentos aleatórios. Mas hoje, comecei a pensar que algumas frases soltas faziam algum sentido quando juntas. Mas hoje, desacelerei o pensamento. Mas hoje respirei fundo, sentei aqui. E o som distante da música tocando me fez ver que precisava escrever hoje. Só hoje. Só essas palavras. Acredito que por esses tempos é mais comum olhar para dentro, ao invés de para fora. Até porque em alguns momentos olhar para fora não faz muito sentido. Acredito que nesses tempos querer respostas não faça muito sentido. Faz mais sentido fazer perguntas. Ou não faze-las. Ou se manter em silêncio. Acredito que nesses tempo as palavras dentro de mim estão com mais urgência de sair. E elas cobram que eu as coloque para fora. Mesmo que muitas vezes elas não façam sentido juntas. E o que elas me dizem? Elas me lembram de um tempo que já foi. Elas me trazem de volta o silêncio de minha mesa de estudo no quintal de minha casa da adolescência. Elas me mostram os tantos e tantos cadernos que já risquei com toda a poesia que achava que tinha. Elas me lembram de cheiros, de ruídos, de frases ditas, de frases lidas, de um pôr do sol em minha antiga cidade. Elas me lembram do passado. Talvez porque, ultimamente, o passado é a única certeza que tenho. De coisas já feitas, de coisas já vividas, de coisas que aconteceram e de perguntas que foram respondidas. E é bom ficar por lá as vezes. É bom ouvir no fundo de meus pensamentos essas palavras sendo lidas. E quando fecho os olhos posso até sentir o antigo vento em meu rosto. Posso até sentir o antigo sol em minha pele. Posso até ouvir o som de palavras sendo ditas e músicas sendo tocadas. Tudo junto as vezes, em um furação de sentimentos. Porque o passado já aconteceu, porque o passado é uma certeza. Porque o passado é ambiente seguro. E quando abro os olhos, percebo que depois de tudo isso, estou encarando o presente. Estou de olhos abertos a olhar para frente. Estou aqui. Estou aqui. E o que isso me diz? Me diz que mesmo não tendo respostas, o melhor é manter os olhos fixos no horizonte. O melhor é sentir o vento no rosto hoje. O melhor é sentir esse sol fraco a bater em minha pele. O melhor é caminhar, só por hoje. Porque, agora não são tempos de respostas. Porque agora, são tempos de perguntas.
segunda-feira, 6 de abril de 2020
Um café e algumas palavras
- Esse blog é história. Histórico. Um marco. Uma lembrança. Uma parte de minha vida. Ele começou 10 anos atrás depois que uma professora de redação me disse, no cursinho, que eu não escrevia bem o bastante. E não mesmo. Vestibular é cheio de regras, normas, métricas. E eu queria algo mais livre. Comecei então, por aqui. Tinha tanta coisa escrita no papel. Tinha tanta coisa escrita em meus pensamentos. Tinha tantas palavras acumuladas. E ao longo dos anos elas foram sendo escritas e escritas. Assim as histórias foram contadas, as palavras acumuladas foram preenchendo esse espaço antes vazio e agora, 10 anos depois ele está cheio. Cheio de histórias, cheio de impressões, cheio de coisas que um dia vivi, sonhei, imaginei, presenciei, vi, ouvi. Enchi esse lugar de mim. De tudo que tinha dentro de mim. De tudo que um dia queria dizer e não disse. De tudo que um dia senti. De tudo que um dia quis dizer a alguém e de tudo o que não quis dizer também e quis escrever. Escrever sempre foi parte de mim. Escrever sempre foi um escape, uma terapia, um desabafo. Mesmo que os escritos ficassem escondidos, fechados no antigo diário na última gaveta de meu armário na antiga casa de meus pais. Escrever sempre me fez ser quem eu sou. Escrever na verdade é um ato de coragem. Foi para mim no primeiro ano. Porque era a primeira vez que escrevia de forma aberta. E com o tempo a experiência se tornou libertadora. Toda vez que pensava algo, imaginava algo, via algo, queria dizer algo eu vinha até aqui, pensava em um título e escrevia. E deu certo por tantos anos. E dá certo até hoje. Mas hoje, 10 anos depois, percorrendo essas páginas percebi o quanto o tempo passou, percebi o quanto amadureci, o quanto vi da vida, o quanto vivi da vida. Passaram-se os dramas, alguns dilemas. Alguns caminhos já não são mais possíveis percorrer. Algumas histórias já ganharam um ponto final muito tempo atrás. Só que tudo isso está aqui. Registrado. Imutável e quieto. Esperando. Parado e imóvel. E hoje eu volto aqui, 10 anos depois e me espanto com tudo que eu um dia fui capaz de escrever. E hoje eu me surpreendo com a qualidade de alguns textos. E hoje eu revivi minha própria história que está toda contada nessas páginas. Nem tudo é real. Nem tudo é inventado. Não vou dizer a diferença. Nem tudo realmente aconteceu. Nem tudo realmente foi como está escrito. Mas não posso dizer a diferença. O que posso dizer é que essas páginas são partes da minha vida. Nessas páginas contém histórias. Contos. Pensamentos. Acontecimentos. E eu sentada aqui hoje, lendo tudo o que um dia foi escrito, só consigo pensar que a minha melhor ideia foi tomar um café para acompanhar. Me enchi de mim mesma. Me lembrei de mim mesma. Revivi minha própria vida. No fim, uma xícara de café e algumas palavras. No fim, digo, se chegou até aqui, leia-me. Porque estou de volta.
quinta-feira, 18 de outubro de 2018
Para falar de mim, novamente
- Há algumas semanas atrás eu fiz aniversário. Em meio a essa discussão toda de eleições e polarização dos eleitores, eu fiz aniversário. E todo esse contexto me fez pensar no quanto mudei nesses anos vividos. Claro, acho ótimo mudar de ideia, ainda mais relacionada ao amadurecimento, e nesses 30 anos pude viver muitas coisas. Talvez todas que a Carolina adolescente de 15 anos queria. Sai de Marília, minha cidade natal, fiz uma universidade pública, morei sozinha em 3 cidades diferentes, até que voltei para a primeira delas em 2016. Fiz estágio em uma grande empresa do ramo de medicamentos genéricos, fui professora de um cursinho popular, viajei para várias cidades. Tenho um amigo/companheiro/amor/namorado/noivo para toda vida. E hoje faço o que sempre sonhei, desde criança, faço pesquisa. Na verdade, faço doutorado e tento fazer pesquisa, mas isso já me deixa muito feliz e realizada. Com aquela sensação de ter chegado onde queria, e com aquela outra, de ainda tem um longo caminho pela frente. Se pudesse ter uma conversa com a Carolina de 15 anos diria que ela ia chegar exatamente onde sonhou, nem um passo a menos, mas sim com muitas coisas a mais. Diria para ela ir em frente sem medo e com um pouco mais de certeza, diria que tudo iria mesmo acontecer na hora certa e no tempo certo, diria para ela segurar um pouco mais a ansiedade. Diria para ela ter um pouco mais de fé. Que eu sei que ela sempre teve, e que eu sempre tenho. O que me trouxe até aqui, na verdade, foi ter esse pouco de fé. Foi acreditar um pouco em mim e não ter nada de certeza mas mesmo assim, ir em frente. Mas, tem uma coisa que não diria para a Carolina de 15 anos, até porque ela não iria acreditar em mim. Não diria o tanto que ela iria mudar. Não diria o tanto de coisa que ela ia ver, para mudar. Não diria o tanto de realidades diferentes e bem mais duras que a dela, e que ela teria contato, para sim, depois de ver tanto, mudar. Não mudar a personalidade, não mudar a essência de "ser Carolina", mas pensar um pouco diferente, pensar um pouco fora da "bolha", na verdade, pensar muito fora da "bolha". Eu sai de uma cidade no interior do estado de São Paulo, não viajei o mundo, mas conheci algumas cidades por aí. Não tive grandes contatos com outras culturas, mas conheci gente de todos os tipos. E não precisei ir muito longe para isso. Talvez, seja por todo esse contexto dos dias atuais, como as eleições, que me fez pensar e querer escrever esse texto nesse blog velho e antigo. Perceber que talvez eu, se não tivesse passado por tudo isso que passei, eu hoje com 30 anos, seria uma pessoa que votaria de uma forma diferente. Seria uma pessoa fechada em minha "bolha" de minha cidade no interior. São nossas vivências que nos fazem amadurecer, é o que vivemos e vimos que nos fazem moldar quem seremos, são nossas escolhas quando estamos sozinhos, são nossos pensamentos quando estamos sozinhos, são nossas ações quando ninguém está vendo. E após passar por tudo o que já disse aqui, eu não poderia ser diferente. Não poderia pensar diferente. A Carolina do passado já era muito humana, muito com esse desejo de cuidar, tanto é que fez um curso na área da saúde. E essa Carolina de hoje só intensificou mais isso. Como ser contra as pessoas? Qualquer uma delas. Como ser contra a educação? Como ser contra a ciência? Como ser contra quem mais precisa de você? Como não pensar em servir, sendo cristão? E como não ver que se está indo contra tudo isso? Como...
Eu não consigo. Então, nesse mês em que fiz aniversário, nesse mês que fiz 30 anos, assumi que não teria como eu ser diferente do que sou. E que vou continuar sendo. Sempre que possível. Mas, a atual situação, me dá um pouco de medo do que possa vir a acontecer. No mais, o que me resta, é ter fé. Essa pouca fé. E tentar torna-lá uma grande fé. Os próximos tempos precisam. Eu preciso. Nós todos precisamos.
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quarta-feira, 27 de maio de 2015
Ansiedade
Foco. Tenha paciência. Respira. Um. Dois. Três. Foco. Feche os olhos. Respira. Respira. Respira. Calma. Bom, acho que passou. Acho que passou. E assim será por pelo menos cinco minutos. Mas vamos lá. Paciência. Paciência. Paciência. Acho que consigo me distrair por mais um tempo. Acho que consigo não pensar em nada por mais um tempo. E daí, quando esse tempo estiver se esgotando, começa tudo outra vez. Um. Dois. Três. Respira. É, um ciclo. Não pensar no que vai ser. Não pensar no que será. Não pensar no que virá. Simples. Não pensar. Deixar acontecer. Distrair a mente. Deixar o pensamento distante. Congelar. A que horas o futuro acontece? A que momento chega a oportunidade? Em que dia a mudança chega? Não tem data. Não tem hora. Acontece simplesmente. Mas e quando se espera por alguma coisa? E se não acontecer nada? E o que vai ser? E como vai ser? E quando vai ser? E se não ligarem? E se não sair a lista? E se nada acontecer? Foco. Calma. Tenha paciência. Um. Dois. Três. Respira. Passou. Por pelo menos mais cinco minutos. Até começar tudo de novo. Até que dizem "Mas querida, você é muito ansiosa. Tudo acontece na hora certa." Um grande consolo. Quando é a hora certa? O que tenho que fazer até lá? Calma. Foco. Um. Dois. Três...
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Um ano
- Quando o relógio marcar 00:00 muita coisa vai ficar pra trás. Muita coisa vai ficar para trás de um ano que trouxe muita coisa nova. Muita coisa vai ficar para trás mas marcadas para sempre em minha vida, em meu coração. Foi um ano de perder os medos. Foi um ano de conquistar. Foi um ano de ser forte. Foi um ano de enfrentar o que viesse, da forma que viesse, sem contestar. Em 2014 fiz o exercício de dar o primeiro passo e deixar o resto acontecer. Fiz o exercício de melhorar minha fé. Até porque fiz também o exercício de me tranquilizar e deixar vim o que viesse como resposta por esses anos todos que tenho batalhado por um futuro. Tinha metas sim, tinha vontades sim, tinha desejos sim. Mas tudo veio a mim da maneira mais maravilhosa possível. Foi um ano para se agradecer. Foi um ano para olhar agora para trás e dar Graças. Foi um ano que ficará marcado. 2014 trouxe lágrimas por não ser fácil a caminhada que quis traçar. Foi um ano de deixar pela estrada velhas convicções e decisões que ficaram velhas e ultrapassadas. Foi um ano de tentar de novo. De fazer de novo. E um ano de começar de novo, inúmeras coisas. Mas resumo como um ano de fé. Um ano que ter fé foi fundamental. Um ano de amor. De muito amor. E um ano de mudanças. Hoje, quando o relógio marcar 00:00 muita coisa vai ficar para trás, mas marcadas para sempre em meu coração.
Que venha 2015! Já espero ansiosa!
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Começa por aqui
-Sempre me surgem muitos pensamentos em uma segunda-feira a noite. Sempre percebo que fico aqui imaginando mais de mil coisas. Ultimamente penso em finais. Aquela hora em que tudo que se acaba. Tudo se vai. Aquela hora em que se deve dizer adeus. Estou cercada desse momentos. Estou cercada de despedidas. Terminei projetos. Finalizei trabalhos. Mudei de cidade. Mudei de casa. Mudei de amigos. Mudei de vida. Mudei de rumo. E quase, mudei de ideia. De algumas dessas coisas não consegui me despedir, não consegui olhar para trás e dizer adeus, não queria entender que seria o fim. De outras, agarrei a mudança e a despedida com minhas forças totais e fui. Fui em direção a sabe-se lá onde. Fui rumo ao que nunca tinha visto antes. Fui. Novamente. E é nisso que pensava nessa segunda-feira a noite quando abri essas páginas empoeiradas desse meu caderno velho e querido. Quantas despedidas. Quantos finais. Quantas idas. Quantas vindas. Certamente foram muitos quilômetros também e confesso algumas lágrimas. Em tudo. Em todos os momentos. Mas hoje, pensei nesses 5 anos, pensei em todas as cidades nas quais já estive e cheguei a pensar, novamente, que minha força está nos finais. Que minha força está na mudança, que minha força está nessa vontade ilógica de ir de encontro ao desconhecido. Apesar de negar isso para mim mesma algumas vezes. Mas está. Nos finais que me torno forte. Nos finais que vejo claramente, o começo. E se hoje olho para o céu da minha terceira cidade a morar em 5 anos, é porque minha força está na mudança. E assim, começo a ver que é preciso aceitar. Que é preciso encarar o que a vida trás com serenidade. Que é preciso olhar e ver. Que é preciso fechar os olhos e ir. Ir com o vento. Ir com fé. E eu tenho ido. Tenho ido durante esses 5 anos em busca de qualquer coisa que chamam de destino, vida, futuro ou estrada. Tenho ido em frente, sempre. Buscando. Esperando. Tentando. Querendo. Vivendo. E o vento aqui em cima, e a lua aqui ao lado me lembram que hoje é segunda-feira a noite e eu estou aqui a refletir. E a pensar que tudo acaba, mesmo e sempre. Mas a maior beleza de um final é um começo. É o que se ganha, não o que se perde. E o resto, o que fica pra trás, deixa a forma mais bonita e sincera de sentir saudades.
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